"Now I am become death, the destroyer of worlds", com essas palavras Oppenheimer comentou a queda das bombas de Nagasaki e Hiroshima nos dias 6 e 9 de de agosto de 1945, um acontecimento que mudou a história dos Estados Unidos e do Japão. No decorrer das décadas seguintes, a literatura japonesa e americana, através das histórias em quadrinhos, responderam com diversas narrativas onde os personagens e seu cotidiano foram diretamente afetados pelo genocídio químico.
Um exemplo clássico deste foco temático na literatura japonesa é o mangá Gen Pés Descalços, que teve sua primeira edição publicada em 4 de junho de 1973. O mangá biográfico trata dos momentos anteriores e a vida depois do bombardeio nuclear de Hiroshima. Com cenas explícitas da destruição e mortes, o mangá foi recebido com espanto. Em diversas cenas relatadas, a história se mescla com a história pessoal de seu criador, Keiji Nakazawa, que aos seis anos de idade viu sua família morrer durante o ataque americano.
Na obra de Katsuhiro Otomo, Akira, publicada em 1991, a perspectiva apresentada sobre as consequências de uma guerra nuclear são muito claras. O Japão não é mais o mesmo, seja no âmbito social, onde a delinquência jovem é um padrão, ou na perspectiva tecnológica, tão incentivada pela indústria pós guerra agora retratada de maneira pessimista no cotidiano japonês. Em Akira somos apresentados a diversas experiências biológicas como causa e consequência de um bombardeio que dizimou Tóquio em um passado recente e que pode acontecer novamente em um futuro próximo
A relação com o discurso de Oppenheimer é marcante em toda a cena, como podemos ver no vídeo abaixo do canal Quadro em Branco:
Além da destruição por si, o ataque nuclear trouxe outra preocupação para o cotidiano japonês e americano: a radiação. Sempre como um assunto nebuloso, os usos e a influência da radioatividade são variados e muito destoantes nos dois contextos.
No Japão, um bom exemplo é o Godzilla, criado pela radiatividade. Ainda que em versões posteriores (e americanas) seja tratado como uma espécie de herói, defendendo Tóquio de ameaças externas (e maiores), o Godzilla sempre foi um monstro de destruição. Junto ao Godzilla, a cultura do Kaiju, o monstro gigante, se popularizou.

Já nos EUA, a radioatividade recebeu uma roupagem diferente. O Incrível Hulk (MARVEL Comics) surge após Bruce Banner, um cientista pesquisador de "radiação gama" ser exposto pela mesma. Como podemos ver a capa da primeira edição abaixo, o Hulk seria ao mesmo tempo um homem e um monstro, e rapidamente se torna um herói ativo, a pesar da instabilidade destrutiva. Outros exemplos são o Átomo, da DC Comics, um herói super poderoso e Dr. Manhattan, criado pelo autor britânico Alan Moore.


Dr. Manhattan tem uma história de origem parecida com a do Hulk, mas ao contrário do monstro verde, Jonathan Osterman se tornou um ser onisciente e super poderoso, que interferiu diretamente em acontecimentos da história americana, como a Guerra do Vietnã.
Como pudemos ver, a literatura americana e japonesa, através dos quadrinhos, interpretou o destrutivo episódio que fecha a Segunda Guerra Mundial de diversas maneiras. Seja pelo heroísmo ou pela destruição de cidades, as bombas nucleares mudaram o olhar para a tecnologia e para o meio, agora radioativo e perigoso.
Outros filmes e referências:
Grave of the Fireflies
The Wind Rises
Porco Rosso
Wild Cards


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