Histórias Cruzadas (The Help) - Racismo nos Estados Unidos dos anos 60

Histórias Cruzadas, ou The Help (Tate Taylor, 2011) é um drama baseado no romance de mesmo nome escrito por Kathryn Stockett. O filme conta a história de Eugenia Skeeter Phelan, uma escritora e jornalista que busca retratar a situação das empregadas domésticas na Jackson (Mississippi) dos anos 1960. Para isso, Eugenia parte dos depoimentos dessas serviçais, que descrevem não apenas discriminação por sua cor, mas pela pobreza em que vivem devido aos baixos salários e à ausência de garantias como salário mínimo, férias remuneradas, ou algum tipo de assistência social. A perspectiva apresentada no filme é a de Aibileen Clark, a primeira das empregadas que aceita auxiliar Eugenia, tornando-se uma das autoras do livro.


Aibileen Clark: "você é gentil, você é inteligente, você é importante".
Além de temas como violência doméstica, machismo, homofobia[1], depressão pós-parto e chantagem emocional, é possível notar no filme uma ênfase na questão dos direitos civis dos negros estadunidenses, sobretudo durante o governo de John F. Kennedy. É esse aspecto que trabalharei, utilizando como apoio o texto de Sean Purdy[2].

Algumas referências históricas que se destacam no filme são um ataque organizado pela Ku Klux Klan a um ônibus ocupado pelos Freedom Riders, um movimento de direitos civis direcionado a acabar com a segregação de negros em assentos de ônibus interestaduais; o assassinato de Emmett Till, um garoto negro de quatorze anos falsamente acusado de assédio à Carolyn Bryant, uma mulher branca; e as Marchas de Selma a Montgomery em favor do direito de voto dos afrodescendentes. Mas talvez os eventos mais popularizados de todos sejam o assassinato do presidente Kennedy e a Marcha de Washington, em agosto de 1963, quando Martin Luther King nos contou sobre seu sonho[3].

Martin Luther King em 1963. Créditos: APF.
Apesar do quadro com a foto de Kennedy pendurado na sala da casa de Aibileen, Purdy assinala que este governo fracassou “em resolver antigos problemas sociais, como o racismo”, provocando “uma explosão de diversos movimentos sociais [...]”[4]. “Seu assassinato inesperado em novembro de 1963 e a subsequente mitificação na memória coletiva como ‘a grande esperança liberal’ têm mascarado a timidez de sua agenda liberal doméstica e sua política aguerrida de contenção do comunismo”[5], representada, sobretudo, pelas ações no Vietnã. Purdy discorda do que ele chama de memória coletiva acerca da simpatia de Kennedy à luta antirracista, referindo-se a ele e seu irmão e conselheiro, Robert Kennedy, como “altamente acautelados”[6].

De fato, vemos em Histórias Cruzadas a descrição de Purdy acerca do cenário enfrentado pelos afroamericanos na época: “segregação formal e informal, linchamento e violência policial, discriminação no emprego, na educação e nos serviços públicos, falta de direitos políticos, pobreza extrema”[7]. Impelidos pelo discurso libertário e afastados da prosperidade econômica vivenciada pelos brancos, em busca de igualdade, esses homens e mulheres endossaram o movimento que culminou na luta por direitos civis.

Nos ônibus, os negros deveriam se sentar apenas no fundo.
É possível notar outros elementos historicamente importantes ao longo do filme, como as Leis Jim Crow[8], prescrições relacionadas à discriminação de negros e outras minorias em espaços públicos. Esse código criado em 1876 vigorou até 1964, quando foi revogado pelo Civil Rights Act. Uma personagem histórica de relevância para este tópico e que é citada no longa é Ross Barnett, governador do Mississippi de 1960 a 1964. Barnett foi membro dos Dixiecrats, um partido democrata segregacionista que concorreu às eleições de 1948, originado da quebra do Partido Democrata. Os Dixiecrats defendiam a supremacia branca e eram a favor da manutenção das Leis Jim Crow, sendo logo depois das eleições do referido ano reincorporados ao antigo partido. Em seu governo, Barnett perseguiu e prendeu ativistas negros de direitos civis, especialmente membros do Freedom Riders.  Em Histórias Cruzadas, as ações de Barnett servem de respaldo às atitudes de Hilly Holbrook, uma das principais engajadas em promover iniciativas de marginalização de afrodescendentes, especialmente as que concernem a questões sanitárias.

Além disso, mais aspectos significativos são a permanência de concepções escravistas no tratamento destinado aos empregados negros; as marcas deixadas pelas teorias raciais cientificistas do século anterior, que enumeravam as doenças exclusivas e altamente contagiosas carregadas por não-brancos; e até mesmo o uso de expressões como coisa de negro

Ross Barnett (com a bandeira dos confederados ao fundo)
Nessa sociedade de aparências, o cristianismo é colocado pelo filme como vilão ou como herói, a depender da personagem, porém a religiosidade definitivamente foi posta como realidade cotidiana, seja a dos negros ou a dos brancos. No caso dos primeiros, assim como nos fala Purdy, vemos a importância da igreja para mobilização ideológica, com influência da justiça social bíblica: afinal, Aibileen diz que sua motivação para escrever o livro com Eugenia veio de Deus. Também foi na igreja que Martin Luther King iniciou sua luta, baseada na desobediência civil.

A bandeira dos confederados aparece tremulando ao vento logo nas primeiras cenas do longa. Nos relatos das empregadas, estão presentes testemunhos de segregação em hospitais, escolas e, sobretudo, nos banheiros das próprias casas que trabalhavam. Os babyboomers que organizavam associações em favor dos brancos eram os mesmo que, vivendo num período de prosperidade econômica, contratavam serviçais negras para cuidarem de seus filhos, que mal conseguiam conectar-se afetivamente com os pais. Esta é a visão que o filme deixa transparecer.

Cena de Histórias Cruzadas, em que Aibileen aparece servindo Hilly (centro da imagem)

Desde Greenbook (2017), filmes como Histórias Cruzadas tem passado por revisão crítica devido a presença do que se denomina White Savior, isto é, uma personagem branca que salva não-brancos de seus problemas, situações das quais eles supostamente não poderiam sair sozinhos. É importante estar atento a essas narrativas, que cresceram justamente na era dos direitos civis, tornando-se populares e frequentes em Hollywood.


Para mais:

BELCHIOR, Douglas. Íntegra do discurso feito por Martin Luther King – I have a dream. Disponível em: <http://negrobelchior.cartacapital.com.br/integra-do-discurso-feito-por-martin-luther-king-i-have-a-dream/>. Acesso em: 11 mai. 2019.
DIXIECRAT. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Dixiecrat>. Acesso em: 11 mai. 2019.
EMMETT LOUIS TILL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Emmett_Louis_Till&oldid=55109755>. Acesso em: 11 mai. 2019.

LEIS DE JIM CROW. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Leis_de_Jim_Crow&oldid=54704402>. Acesso em: 11 mai. 2019.

MARCHA SOBRE WASHINGTON. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Marcha_sobre_Washington&oldid=54320169>. Acesso em: 11 mai. 2019.

MARCHAS DE SELMA A MONTGOMERY. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Marchas_de_Selma_a_Montgomery&oldid=54719721>. Acesso em: 11 mai. 2019.

PURDY, Sean. Rupturas do Consenso: 1960-1980. In: KARNAL, Leandro (et al.). História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2008, p. 235-256.

ROSS BARNETT. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Ross_Barnett>. Acesso em: 11 mai. 2019.

VIAJANTES DA LIBERDADE. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Viajantes_da_Liberdade&oldid=53686890>. Acesso em: 11 mai. 2019.

[1] O termo “homofobia” foi usado pela primeira vez em 1971, enquanto o filme se passa na primeira metade da década de 1960. Ressalto que estou ciente e que, portanto, o emprego deliberadamente.
[2] PURDY, Sean. Rupturas do Consenso: 1960-1980. In: KARNAL, Leandro (et al.). História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2008, p. 235-256.
[3] BELCHIOR, Douglas. Íntegra do discurso feito por Martin Luther King – I have a dream. Disponível em: <http://negrobelchior.cartacapital.com.br/integra-do-discurso-feito-por-martin-luther-king-i-have-a-dream/>. Acesso em: 11 mai. 2019.
[4] PURDY, Sean. Rupturas do Consenso: 1960-1980. In: KARNAL, Leandro (et al.). História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2008, p. 235.
[5] PURDY, Sean. Rupturas do Consenso: 1960-1980. In: KARNAL, Leandro (et al.). História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2008, p. 236.
[6] PURDY, Sean. Rupturas do Consenso: 1960-1980. In: KARNAL, Leandro (et al.). História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2008, p. 246.
[7] PURDY, Sean. Rupturas do Consenso: 1960-1980. In: KARNAL, Leandro (et al.). História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2008, p. 243.
[8] A expressão Jim Crow provavelmente originou-se da canção Jump Jim Crow, cantada e dançada pelo ator Thomas D. Rice, com maquiagem blackface, caricaturando os negros. A canção foi lançada em 1832 e era usada para satirizar as políticas populistas de Andrew Jackson. Em consequência da fama de Rice, Jim Crow tornou-se, em 1838, uma forma pejorativa de se referir aos negros. No fim do século XIX, quando as legislaturas sulistas aprovaram leis de segregação racial dirigidas contra os negros, essas leis ficaram conhecidas como Jim Crow laws ('leis Jim Crow')”. (LEIS DE JIM CROW. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Leis_de_Jim_Crow&oldid=54704402>. Acesso em: 4 abr. 2019.)

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