"Hair" e "Across the Universe": protagonismo de jovens na Guerra do Vietnã

ATENÇÃO! Essa postagem contém spoilers massivos de dois musicais que devem ser vistos com a magia da surpresa. Se você não assistiu a estes filmes, volte depois. De nada.

Um é consagrado como sucesso, tanto no teatro como no cinema; o outro é queridinho de (quase) todo fã dos Beatles. Com uma temática em comum, os musicais Hair (Milos Forman, 1979) e Across the Universe (Julie Taymor, 2007) trazem, de formas distintas e em épocas diferentes, visões que seriam as dos jovens mais paz e amor da década de 1960. Meu objetivo aqui é mostrar que, além de terem um enredo envolvente, esses dois filmes retratam o drama de ser protagonista de uma guerra que desfigurou corpos e destinos.

Primeiro, as sinopses!



O jovem estivador Jude (Jim Sturgess) sai de Liverpool em busca do pai, que mora nos Estados Unidos, e é envolvido pelo mar de mudanças que está transformando a nação norte-americana. Ele se apaixona por Lucy (Evan Rachel Wood), uma menina americana rica que participa do crescente movimento pacifista dentro da América, e os dois namorados, tão diferentes, veem-se em um mundo psicodélico e enlouquecido (retirado de Filmow).



Claude, um jovem do Oklahoma que foi recrutado para a guerra do Vietnã, é "adotado" em Nova York por um grupo de hippies comandados por Berger, que, como seus amigos, tem conceitos nada convencionais sobre o comportamento social, e tenta convencê-lo dos absurdos da atual sociedade. Lá, Claude também se apaixona por Sheila, uma jovem proveniente de uma rica família (retirado de Filmow).

(Se você tiver mais de quinze anos, deve conhecer a música do trailer, Age of Aquarius, desse comercial irritante aqui:)


Não sou grande fã de sinopses porque geralmente costumam ser simplistas, mas aqui elas são muito úteis justamente para introduzir o arco principal dos filmes (Thank you, Captain Obvious!). Já de cara é possível perceber mais semelhanças, sobretudo no padrão de envolvimento amoroso cara-pobre-com-problemas/moça-rica-transgressora. Mas é importante ressaltar que em nenhum dos dois casos a situação é tão superficial quanto parece. 

Hair é originado de uma peça de teatro de 1967, e explicita os desafios e a beleza de viver na rua, sem renda fixa nem garantias, mas preservando a liberdade de poder ser quem se é. É uma visão do hippie, adicionando a isso os dramas familiares desses indivíduos e suas expectativas para o futuro. Hair transcende no ponto em que abusa de símbolos, questiona valores sexistas e racistas, e não se ausenta de levar ao telespectador a idealização envolvida na opção de se adotar tal estilo de vida: não de maneira taxativa, mas deixando bem claro que nem todos os problemas são resolvidos quando se segue um caminho como este. O que quero dizer é que Hair não é nem de longe uma história maniqueísta.

Na cena abaixo, após a invasão de uma festa de casamento dada pela família de Sheila, Berger sobe na mesa com seu all star imundo e deixa os burgueses escandalizados com seu discurso e modos. O próprio nome do musical nos indica uma transgressão básica do grupo: a liberdade que seus cabelos possuem de crescer.

I got headaches and toothaches
And bad times too
Like you

Berger canta em defesa de uma humanização, fugindo das aparências e convenções supostamente representadas pelos ali presentes. I Got Life representa uma volta ao primordial, um corpo feito de sangue pulsante, como qualquer outro. Sheila claramente se encanta com a proposta, provavelmente seduzida por uma realidade tão diferente da sua. 

Ressalto que em Hair a música contribui diretamente no desenrolar da história, o que não acontece com Across the Universe, visto que este é mais um tributo. Assim, a parte musical das duas obras se constrói de maneira oposta: com o primeiro, a música vem pela história, e com o segundo, os elementos visuais se adequam aos musicais. 

Uma das cenas mais impressionantes de Across the Universe, e que por sinal demonstra isso, é o recrutamento de Max, irmão de Lucy:
It's driving me mad, it's driving me mad
Yeah

Gosto de tentar captar todos os símbolos inseridos nessa cena, e são muitos, começando por um Tio Sam mais ameaçador do que convidativo, cantando o famoso slogan I want you; soldados com rostos idênticos, como bonecos, que examinam os novos recrutas em cubículos de maneira estéril; jovens embalados como mercadoria, com direito a caixa, plástico filme e carimbo; e o ápice: os agora combatentes no Vietnã carregando uma pesada liberdade, simbolizada pela icônica estátua. Aquela liberdade que muitos norte-americanos carregam consigo ainda hoje em guerras como justificativa para invasões em outros países. 

Por fim, a canção, dando um tom ainda mais dramático ao destino de Max.

Tio Sam no cartaz oficial de recrutamento americano para a Primeira Guerra Mundial (James Flagg, 1917)

Across the Universe propõe um mágico e misterioso tour com um tom mais introspectivo, regado a canções de ambas as fases dos Beatles. Os próprios integrantes da banda, principalmente John Lennon, fizeram resistência à Guerra do Vietnã de maneira pacífica, em canções e atos simbólicos. No clipe abaixo é possível ver Lennon e sua esposa, a artista plástica, cantora, compositora e cineasta Yoko Ono, em um de seus famosos protestos bed-in. Além disso, há cenas de passeatas a favor da paz, com consequente repressão policial.


Assim como Hair, Across the Universe não pretende ter heróis e vilões, mas mostrar a vida de um imigrante inglês ilegal nos EUA, a dinâmica de seu grupo de amigos artistas e ativistas, e até mesmo as contradições movimento revolucionário. Um pisão nos calos dos radicais políticos. 

Com uma estética profundamente psicodélica (muito adequada, por sinal), há personagens que fazem referência a grandes músicos da contracultura, como Jimi Hendrix e Janis Joplin. Também em Across the Universe se vê a temática de contestação da sexualidade padrão, dessa vez pendendo de fato para a homoafetividade. Neste filme, o racismo fica registrado não apenas como uma discriminação verbal, mas pela violência concreta, numa referência aos conflitos entre a população negra e a polícia de Detroit, ocorridos em 1967.

Acredito que as cenas selecionadas sintetizam o espírito dos dois filmes e são formas diferentes, e ao mesmo tempo muito semelhantes, de retratar uma juventude que viveu dilemas ideológicos tão intensos. Sem entrar no mérito da qualidade técnica das obras, podemos perceber que ainda é possível contar essa história com originalidade.

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